20 de julho de 2009

Coleção



Ela colecionava bocas.tinha uma verdadeira compulsão por elas.Gostava de todos os tipos.Carnudas, vermelhas, fininhas, brilhosas, com batom, com glitter, com cavanhaque, apenas bigode, grandes e pequenas, naturais e artificiais. Não distinguia por sexo, cor, credo ou classe social.
Quando andava na rua, olhava as bocas com desejo e paixão. Fantasiava histórias para elas e sonhava com o dia em que encontraria a boca com o encaixe perfeito.Não tinha nada específico nela.não tinha que ser de dentes extremamente claros ou grandes. Ela dizia que quando a visse, saberia que era ela.
Com o passar dos anos começou a se sentir sozinha e achou que jamais encontraria a boca que encaixasse com a dela, em que no beijo seria selada sua felicidade. Passou então a buscar em todas as bocas uma boca que fosse especial...Sua predileção virou obsessão. Não podia ver uma boca que lhe sorrisse simpaticamente.
Sua própria boca mudou.era uma boca nervosa, embrutecida. Já não tinha a mesma maciez de outrora. Ficou mal vista.Diziam sobre ela coisas terríveis e a recriminavam por colecionar tantas bocas. Chegou ao ponto em que ninguém mais queria se entregar à sua boca.fazer parte da sua coleção de bocas já não tinha o prestígio de antes. Hoje era quase um traço negativo.
Numa tarde de chuva, viu um homem escorregar na calçada. E ela o viu rir sozinho, dele mesmo sem pudores. Nunca tinha visto tamanha beleza em uma boca. Era uma boca sincera. Não tinha os cantos retesados ou nervosos das bocas que havia conhecido.era uma boca livre de preconceitos e medos.Num impulso único, colou seus lábios ao dessa boca.Sabia que era um ato impulsivo, mas não queria se arrepender. Foi correspondida no beijo e por uns poucos minutos experimentou a felicidade plena. Não havia mais medo nem solidão.
Se ela ficaria para sempre com aquela boca, não sabia.Mas sabia que a sua boca seria para sempre dele e torcia para que os lábios dele, fossem sempre seus

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